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 D. Miguel e o seu tempo

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joe war
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Local/Origem: : Vila Real - Trás-os-Montes
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MensagemAssunto: D. Miguel e o seu tempo   Dom 12 Mar - 4:01:07

Caríssimos

Pareceu-me importante falar de D. Miguel e do seu tempo, da guerra civil, do absolutismo e do liberalismo, do estrangeiro e dos estrangeiros e de Portugal...
Visto que é marco incontornável quando se fala em Monarquia, então vamos a ele.
Para começar vou citar um texto de Hipólito Raposo chamado “A paixão de Évora-Monte”, transcrito do site “Unica Semper Avis”, que colocarei aqui por fascículos para que não fique um post muito longo e permitir uma discussão mais pormenorizada.

“A paixão de Évora-Monte” - 1ª parte

O tratado de Londres, firmado pela Quádrupla Aliança, em 22 de Abril, a chegada dos navios ingleses à nossa costa, o desembarque do almirante Napier que da Figueira avançaria por Leiria, Ourem e Torres Novas, a perda da batalha da Asseiceira, a marcha da divisão espanhola do general Rodil, através da Beira e do Alto Alentejo, afirmavam o claro propósito de que a ofensiva da Primavera fosse a última do exército liberal, na conquista da vitória.
Tornava-se evidente que as forças de D. Miguel, ainda com resistência para prolongar o sacrifício da guerra civil ou para enobrecer um desespero em campo aberto, já não poderiam sustentar um trono condenado pela intervenção estrangeira, combalido pelas constantes deserções e traições e pela quase permanente incapacidade dos comandos superiores, em contraste com a perícia de dois chefes militares, corno eram Saldanha e Terceira, um grande soldado e um perfeito general.
A Asseiceira, em alguns recontros indecisa, terminara na tarde de 16 de Maio. Na véspera, a infanta D. Isabel Maria seguira de Santarém para Elvas com alguns servidores e urna pequena escolta, para não ficar exposta às agruras de um possível cerco.
Muitos propunham (e queriam...) que a rendição se desse ali mesmo, em Santarém. D. Miguel, julgando já insustentável a posição que tivera durante meses, logo no dia seguinte a abandonou a D. Pedro e a Saldanha (que então «passou do Cartaxo») e atravessou o Tejo em direcção a Évora, no intuito de concentrar forças para a acção decisiva que se aproximava.
Com más lembranças saía o Rei de Santarém: ali lhe ficavam cinco mil soldados, mortos de tifo pela invernia; durante a ocupação, haviam perecido alguns milhares de habitantes da vila, às vezes enterrados a cento e cento, de sol a sol; lá ficava no seu pobre caixão de folha, na igreja do Milagre, o cadáver da Infanta D. Maria da Assunção, morta em Janeiro, aos vinte e oito anos, no meio da geral desdita e que à falta de outras honras, após alguns anos do triunfo liberal, só pôde ser sepultada em campa rasa.
Às forças do Duque da Terceira, na Golegã, vinha entregar-se e entregar a cavalaria do seu comando - os dragões de Chaves e vários corpos municiados - o brigadeiro Joaquim Urbano, que àquela cilada de deshonra trouxera os soldados, iludidos e inflamados na esperança de que iam combater pelo seu Rei.
Tanta perfídia, mereceu nas Memórias do Marquês de Fronteira estas palavras de honrada punição de um adversário:
«0 general traiu o seu Rei, na desgraça, e traiu os seus subordinados, levando-os a cometer uma infâmia, e, honra seja feita aos bravos dragões de Chaves, tenho a convicção, porque o presenciei de perto, de que, se uma voz se levantasse entre eles naquela ocasião, lembrando-lhes o seu Rei, preferiam morrer todos a abandonar a sua bandeira.»
Igualmente avulta, pela sua miséria moral, o procedimento que cobriu de vergonha o coronel António Cardoso de Albuquerque. E outros, e tantos...
As tropas de D. Pedro, à última hora, viam subitamente aumentados com bons reforços os seus efectivos. Bem certo é que a história muitas vezes se repete... Chega a ser fastidiosa, pela insistência, a sua verdade justiceira. D. Miguel entra em Évora a 21. No dia imediato dirige uma proclamação ao País, a protestar contra a intervenção da Espanha, da Inglaterra e da França nos negócios da política interna de Portugal. A Nação ainda o ouvia, mas já não podia falar. A 23 reúne-se no paço do Arcebispo um conselho, no qual, examinada friamente a situação, se decide por maioria pedir o armistício. As possibilidades de resistência diminuíam de hora a hora. Ouviam-se muitas vozes provocadoras de desânimo. A confusão dominava já os melhores juízos.
No outra dia, a 24, o Rei passa a última revista às tropas nas cercanias de Évora. Era um adeus mudo e solene: 16.000 infantes, 14.000 cavaleiros, 35 peças de artilharia ali estavam ainda em parada, para a vida e para a morte. No Algarve, o general Cabreira, dizia-se, comandava 3.000 infantes, 200 cavaleiros, algumas bocas de fogo, fora as guerrilhas da Serra; havia mais gente para entrar no conto que operava e se batia para as bandas de Alcácer. Somadas as guarnições dispersas além do Tejo, as forças miguelistas subiriam a 35.000 homens.
Mas batiam-se contra os marechais, mas tinham de lutar contra a Espanha, a França, a Inglaterra e, mais ainda, contra a misteriosa corda de traições e defecções que vinham do general Póvoas e da vitória vencida de Souto Redondo.
Terceira internara-se já no Alentejo, esse mesmo Terceira que, ainda então Conde de Vila Flor, fora no estado maior do Infante D. Miguel receber a Arroios o Conde de Amarante, que descia a Lisboa para colher os louros do pronunciamento de Trás-os-Montes contra o Vintismo. Pelo Alentejo penetrava também Saldanha, a largas marchas, para envolver e reduzir os campos de operações daquele mesmo Príncipe que onze anos antes ele acompanhara a Vila Franca, e que no regresso da Campanha da Poeira pisara aos pés o laço constitucional. É assim, mudável e vária a humana condição...
Aprazados os dois marechais para Montemor, ali se reúnem com o general miguelista Guedes de Oliveira e assentam que a convenção seria assinada em Évora-Monte, passados três dias.


grato

Joe war


Última edição por joe war em Sab 23 Dez - 14:33:34, editado 3 vez(es)
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joe war
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MensagemAssunto: Re: D. Miguel e o seu tempo   Sab 23 Dez - 1:52:31

“A paixão de Évora-Monte” - 2ª parte




Fora também a 26 de Maio, em 1823, que o regimento de infantaria do Castelo de S. Jorge se erguera ao toque de deitar correias no pronunciamento da Vilafrancada, ordenada pelo Infante D. Miguei e pelo brigadeiro José de Sousa Sampaio.

Na velha praça alentejana compareciam agora os dois marechais, por D. Pedro; o general Azevedo Lemos, por D. Miguel; o brigadeiro D. Ramon, representante de D. Carlos de Espanha; o secretário da legação inglesa que já estava no quartel general de Saldanha, seria o portador das antigas condições de capitulação, ditadas pela Grã-Bretanha, e malogradas por inaceitáveis, após a conferência do ministro lord Howard com o general Lemos, em 22 de Março, na ponte de Asseca.

Um mês depois daquela digníssima desinteligência, firmava-se em Londres, o já referido pacto da Quádrupla Aliança.

Não perdia o seu tempo a Maçonaria...

Pela Convenção, D. Miguel I tinha de deixar Portugal, dentro de 15 dias; escolheria o porto português e a nacionalidade do navio em que desejasse embarcar; reconhecia-se-lhe o direito à pensão anual de 60 contos; os seus oficiais conservariam os postos alcançados; os civis regressariam em paz aos seus lares...

Parecia um programa de concórdia civil, logo completado com o decreto de amnistia.

Assinada a Convenção numa casota térrea da vila, foi servida uma ceia que a presença do general vencido impediu que fosse festiva.

Lemos nada quisera nem pedira para si. O filho do povo, sempre tão desdenhado por certos fidalgos sem nobreza, que só mantinham o privilégio de ultrajar os nomes de avós ilustres, declarava que seguiria o destino do seu Rei, para o desterro. Ao descer de Évora-Monte por entre oliveiras, dolorosamente simbólicas, esse general Azevedo Lemos, ladeado apenas dos seus ajudantes e do marquês de Fronteira, que o acompanharia até aos postos avançados do exército miguelista, representou ali a lealdade e a vencida dignidade do povo português, nessa noite de silêncio e de luar tépido, em que a História abriu as páginas à glorificação das suas virtudes militares.

No dia seguinte, 27 de Maio, D. Miguel mandava ler e afixar a Convenção; dirigia o seu maior louvor às tropas, mostrando-lhes a impossibilidade de prosseguir numa luta sem esperança, desde que, contra a legitimidade do direito dinástico, contra a própria dignidade da Pátria, tropas e navios estrangeiros andavam combatendo em Portugal. O inimigo já não era uma facção de portugueses, constituía-o uma coligação de três poderosas nações da Europa.

De encontro aos quinais da Sé, do Paço do Arcebispo, do antigo palácio da Inquisição, ouviam-se ferros a tinir: eram as espadas que os oficiais partiam por desespero, para não as entregarem ao vencedor. Outros muitos arrancavam as barbas, em gritos de cólera e dor: Traição! Traição!

Em cumprimento das cláusulas da Convenção, o exército realista começava a desarmar e a destroçar.

Na noite de 27, em Lisboa, já decretada a amnistia, abria-se para a récita de gala o Teatro de S. Carlos. Por não ter mandado fuzilar o irmão e preferir dar um testemunho irrefragável de Clemência, e dos sentimentos de Amor e de Indulgência, D. Pedro sente, no camarote real, o primeiro ímpeto da justiça popular, nos insultos e doestos que não acalmam e ali desacatam ruidosamente a sua autoridade.

Acima dos dois príncipes irmãos, o vencedor e o vencido na luta pela soberania, erguia-se de mais baixo e para mais alto, a soberania do povo. O Imperador do Brasil ali conheceu que o preço da vitória da Liberdade foram os grossos patacões, talvez trinta fossem eles, vilmente arremessados à sua face mole e pálida de ético.

Ele pôde ainda dizer: «Fora, canalha!», mas essa canalha era agora o «poder mais alto que se alevantava». Ela ficou, ficaria, e quem saiu fora foi D. Pedro com a primeira hemoptise, com pedras e lama sobre a carruagem, para se finar dali a quatro meses, numa câmara de Queluz. Quem se ausentava do teatro e de Portugal era a Realeza verdadeira, sem alcunha que a desmentisse.

grato

joe
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MensagemAssunto: Re: D. Miguel e o seu tempo   Sex 5 Jan - 0:33:32

Bravo! Que a verdade seja dita.
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MensagemAssunto: Re: D. Miguel e o seu tempo   Hoje à(s) 11:29:25

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